ROMARIA DE UM DEVOTO

por esta noite de bares fechados,
gato turvo e jacinto clandestino
caminho a rua como um vulto e acabo
um cigarro — ele lembra aquela boca
seca só de silêncios, mas de um riso…

sujo a calça na poça de outra noite
cada passo
é um enfático
sem por quê

me pego no silêncio relembrando
feixes sem divisões relance e raio me rastejam escusos
e acendendo o cigarro me disseste
enquanto nossos olhos de café
permaneciam soltos
nas membranas das nuvens de novembro
que cada mês tem nuvens diferentes
que as de março não são as de dezembro

e que se fomos feitos um pro outro
cada um estava longe, no seu tempo…

e eu me pergunto de onde é esta poça
se há dias não chove…

vou para casa e cada passo troa
porque carrego em mim mais que a mim mesmo.
na meia-noite eu sumo no último ônibus,

mas ao chegar em casa reapareces
como as lanças de luz de um sol a pino
direto no olho…

e buscando Morfeu reviro a mente
mas acima entre e embaixo continuas
tu e somente tu que és tudo e tão.

2016-2019.

ECLIPSE LUNAR

do quarto vejo o eclipse
enquanto escuto Dylan,
mais um trago de uísque
pra encurtar a vigília.

vendo tua mudança,
“moon, I replay the past”…
como Mimo-de-Vênus
lentamente te vestes:

branca, bebes do sol
a luz que te enrubesce
mas lentamente murchas
e na noite esvaneces.

antes em sangue, a lua
em nada se transmuta,
porém, lá continua,
eu sei, mesmo que suma.

do quarto vejo o eclipse
enquanto escuto Dylan,
um trago no cigarro
pra encurtar minha vida.

eu sei que continua,
que escondida é clara
que a mensagem da lua
é uma metáfora.

21.01.2019

SONETO SILENCIOSO

quedo o olhar em teus lábios, Katarina,
e cada sílaba silente eu sorvo,
tua voz é tão bela e cristalina
que se eu falar será ruído e estorvo.

quando, com o olhar distante, fico mudo,
ou se num close a tua boca eu capto,
é porque estudo todo o conteúdo
de tua voz que me arrebata em rapto.

não sabes que ao falar tu me hipnotizas
com cada movimento e em cada pausa
(que é a parte em que entre os lábios tu deslizas
a língua, sem saber o que isso causa…)

Mas busco teu silêncio… meu desejo
é que tu te emudeças com meu beijo.

03.03.2019

ARLEQUIM E COLOMBINA

Nas ladeiras de Olinda, a cálida folia
por um descuido entrou nos pés de Colombina
e ela que com Pierrot dançava, na surdina
se excitava em saber que Arlequim lhe queria…

Daquela noite em diante, assim a cada dia,
pensar em Arlequim recendia a resina
em seu corpo a escorrer, faziam-na menina
o profano e o proibido ante a monotonia.

O carnaval lançou seus pés numa aventura:
viu que a satisfação é melhor que ser pura
que a embriaguez do desejo olvida o certo e errado…

Despida de pudor, embebida em malícias,
Colombina se entrega a Arlequim que, safado,
apresenta-lhe as vis e lívidas delícias.

03.03.19

SONETO DE CARNAVAL

Olinda, 03.03.19

Ébria e absorta por lança perfume
nas ladeiras do Amparo que eu te vi
serpentinas soltavam-se de ti
quando o teu corpo arrebatava o cume

não me importava o bloco ou o volume
dos mil maracatus vindos dali
mas só tu — que eras flor, e eu colibri;
a mariposa te seguindo o lume

teus pés em êxtase, o calor do frevo,
e a multidão de gentes em enlevo
escalavam os píncaros de Olinda…

Levado na fuzarca do relevo
perdi o teu olhar, menina linda,
mas algo diz que vou revê-lo ainda…

Volúpia

Quando me entregarás teu corpo, amada?
Tuas mãos, tuas pernas e teus seios…
Estes teus belos lábios… Encontrei-os
Tão longe de meu beijo à madrugada.

Quando te entregarás? És a esperada!
De volúpia teus olhos estão cheios…
Dá-me teus beijos cálidos, anseio-os,
E te entrega à volúpia da pancada.

Quando me entregarás os teus gemidos?
A mais perfeita voz aos meus ouvidos…
Escondamos de lado a vã virtude

pra que eu esquadrinhe o teu segredo
Me rebuscando em ti pra que, sem medo,
Nos consuma a embriaguez da juventude.

2.13

AMANDUS

e depois de tanto
ainda nos negamos.
obstando encontros,
soltos, nos perdemos.

um sussurro acinte
sutis sensações:
sinto o que há sem ti
e, por conseguinte,
o que já não há,
que em vazões perdi.

mas eu ainda ontem
jurei que o arrepio
no meu antebraço
foi o teu suspiro
sutilmente em mim
de ti desencontrado.

sabe? os arrepios
surgem de suspiros
que, soltos, se encontram
sobre a superfície
dos nossos espíritos.

por fim, os suspiros
que nascem em nós
vêm de ermos retiros,
de inóspitos vãos
que em ambos deixamos

quando nos desencontramos.

Ih, caro irmão…

pequeno homem, Dédalo,
O erro de teu filho foi teu erro…
ele, lírico,
não respeitou o limite apolíneo…

mente de metal e rodas,
quiseste ver em suas asas teu augúrio
mas ouviste, aurospicino,

nos escombros de tua obra
nos estilhaços de teu filho
o quase mínimo murmúrio
que tua vida é andar sem cinto

Canções marítimas

(I)
Eu viverei cantando as alegrias,
Cantando à noite gélida, às procelas,
Eu cantarei as horas fugidias,
E também as mais cálidas donzelas.

Eu deitarei meu canto ao fim dos dias
Enquanto deito o corpo das mais belas,
Eu viajarei ao mar às noites frias
Enquanto o vento move as minhas velas.

Lançado ao mundo imenso eu viverei
Cantando aos pobres e também ao rei…
Eu lançarei meus cantos ao prazer,

E quando o coração não aguentar
Vós todos cantareis quando eu morrer
Lançando cantos fúnebres ao mar.

25.01.13

(II)
Ar marítimo, trazes salsugem
de outro mar, e a seu ritmo as marés
te incorporam. Do toque, ressurges
outro: cheios teus poros com o novo.
Pois, te deixas no beijo
Mas, beijando, tu levas…

Ar marítimo, qual fim das velas
que guiaste? De qual haste posso
te prever? Voltas: não és o mesmo;
Te deixaste no beijo
E, dele, vens com espólios.

Ar marítimo, teu movimento
suga tudo que evola e enovela,
ar marítimo, tu encarceras
a tua essência em esvaecimento.
Ao moveres, tu deixas,
ao ficares, tu levas…

O que o teu movimento legou?
E da tua essência, o que dirão?
Se tu levas, paixão,
se tu ficas, amor.

09. 07. 2018